sábado, 2 de outubro de 2010

Quero


Meu coração está mudo
Meu desejo está calado
Meu sonho parado
Meu outono encabulado

Meu jardim não mais floresce
Meu canto não mais ecoa
Meu olhar não mais se cruza
Meu pensamento não mais vagueia

Eu quero o gosto louco
De sentir saudade
Quero passar pelo sufoco
De ter mais do que amizade

Quero amar alguém
Que deseje ser amado
E queira ficar ao meu lado
Que me trate com cuidado

Quero perder a razão
Quero perder os compromissos
Quero me desconcentrar no trabalho
E rir solitário, lembrando do beijo que dei

Quero esquecer os estudos
E os relatórios enfadonhos
Quero viver eternos sonhos
De complementar alguém

Mas mesmo que queira tanto
Não posso criar um encanto
Nem fazer um quebranto
Pr'a gostar de alguém
 
Não posso acelerar o porvir
Não posso ultrapassar o desejo
Que só surge arteiro
Quando bem quer e entende
 
E quanto mais desejo amar
Mas longe ele se esconde
Quem, quando, onde?
Ele sozinho virá

E que aches logo o caminho
Não aguento viver sozinho
Quero o doce colinho
Do prazer de amar

sexta-feira, 2 de julho de 2010

A vida como conto de fadas


A trilha que percorro
Tão rápido ligeiro
Deixo meu sinal
Se precisar voltar
Mas o corvo, muito arteiro
Comeu minha migalha de pão
 E a floreta é tão escura
Me impede de voltar...
O lobo me persegue e traz á tona
Todos os meus medos
É como se eu estivesse
Presa em meu inconsciente
Numa torre lá no alto
Mas eu não posso descer
A bruxa quer me coser
Quer me transformar em biscoito.
Preciso encarar, vencer meus pesadelos
Eu desço pelas longas madeixas loiras
E corro, corro como nunca antes sem olhar para trás
Eu paro, não há como fugir
Eu tenho fome
Vejo uma linda maça
Abocanho-a e me vejo em sonhos
Com sete pequeninos lenhadores
E nenhum príncipe viril.
A vida parece fantasia
Mas, cadê o lado bom?
Nada de castelo, príncipe e cavalo branco
Nada de bailes, luxo e riquezas
Só noite, trevas e escuridão
E não há como fugir
Desse pesadelo interminável
Sem fim...

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Abraço


Quadro The Kiss de Gustav Klimt, fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Kiss_%28Klimt_painting%29

Quando me tomas em teus braços
E me afagas com carinho
Me sinto um passarinho
Protegido em seu ninho

Teu abraço tão forte
Teu instinto protetor
É o mais desejável dos apoios
O mais doce amor

Parece que minha vida
Inteira vai-se desvairando
Quanto me tomas em teus braços
Feito doce tirano

Não tenho forças
Não consigo resistir
Desfaleço, me derreto
Envolta somente em ti

E se além de teu abraço
Me dás também um beijo
Me torno cor de jambo
Estremeço por inteiro

Não preciso de mais nada
Pois já tenho a ti
O mundo para nesse instante
Posso até morrer assim.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Ressurreição

Anoiteci em plena solidão
Perdi minha paz e minha razão.
Chorei lágrimas de sangue.
Trovejei seu nome com um grito de pavor.
Afundei-me num abismo imenso.
Derramei minhas dores no escuro do silêncio.
Naquela noite, morri porque te conheci.

Amanhecia em completo desespero.
Por que fostes embora assim?
Desejava não ter nascido.
Muito menos ter te conhecido.

Mas algo me ressuscitou.
A vida reclamava minha presença.
Não podia viver de ausência.
Tinha de sobreviver.

Levanto-me da cama.
Olho meu rosto no espelho.
Lavo minha pele do seu cheiro.
Lavo minha vida da sua.
E volto a viver.

sábado, 27 de março de 2010

Vou-me para Brasília

Vou-me para Brasília
Lá sou amiga de Lula
Lá tenho cartão de crédito
E jatinho particular

Vou-me para Brasília
Lá tem muita corrupção
Lá vivo a vida cantando
“Não é minha culpa não”

Vou-me para Brasília
Lá todo dia tem propina
Tem mensalão e tudo mais
Pra que vou querer outra vida?

Vou-me para Brasília
Lá ponho dinheiro na cueca
Ponho na meia, na bolsa
E onde espaço tiver

Vou-me para Brasília
A vida lá é contentamento
Lá farei tudo que quero
E aquilo que bem entendo.

E quando tiver vontade
De ser honesto e gente de bem
Deixo de ser político
E viro um Zé ninguém.

sábado, 20 de março de 2010

Mulher

Meu corpo tão puro
Tão frágil e tão forte
Nascente fecundo
Da vida que emana
Se faz tão fútil
Simplório, tão fraco
A cada maltrato
Que sofre e se abala

A vida que carrego
Dentro de mim
Me torna o ser
Mais completo em si
Mas tal atributo
Tão esplendoroso
Se faz desprezado
Em sofrível desgosto

Eu lhe dou a vida
Eu lhe dou o prazer
Mas não sou objeto
A te pertencer
Não sou marionete
Em mãos tão tiranas
Que partam a vida
A doce esperança

Minha feminidade

Única, sublime
Deve ser asserto
Do cuidado infinito
Deve invocar o respeito
A doce ternura
E dar a certeza
De que tal bela criatura
É ser divino

De esplendida formosura.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Substantivo


Meu amor é um substantivo
Porque dá nomes ao meu desejo.
É comum, pois o amor romântico
Atinge muitos corações.
É próprio, visto que o amor que lhe dedico
É completamente particular.
É primitivo, pois és meu primeiro amor
É derivado, porque vem da admiração profunda
Que tenho por ti.
É simples, pois a beleza está na simplicidade
É composto, já que combina a si
Muitos sentimentos: respeito, carinho, lealdade...
É abstrato, visto que o sinto e não o vejo.
É concreto, porque a cada dia
Solidifica-se mais.
É comum de dois, pois também me amas.
É biforme, já que te amo com um amor
Fraterno e romântico.
É uniforme, pois nos unirá
Em uma só carne.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pensamentos



O sol se põe
E com ele meus pensamentos
Pensamentos tão fortes tão intensos
Pensamentos que luzem no firmamento
Brilham na minha mente
Irradiam sua claridade
Nasceram tão docemente
Como o alvorecer de uma manhã
E antes que eu percebesse
Predominavam em meu raciocínio
Como o sol, forte e imperioso
Dominaram todo o meu intelecto
Movem-me a ação
Fazem-me querer transformar
Mas, não! Não é hora de tu luzires
Não! Não podes prevalecer em mim!
Seu brilho quer ofuscar minha razão...
Não! Não posso pensar em ti!
Não! Não posso permitir!
Portanto, vai-te pensamento!
Põe-te como o sol que se vai
Languidamente numa noite enluarada
Não deves luzir!
Não podes luzir em mim!
Mas tu resistes
Como aquele sol
Que numa tarde de verão
Persiste a nos entorpecer
Com seu calor e seu poder
Mas finalmente, a noite vem...
E o sol se põe
E com ele meus pensamentos.